Caderno de Receitas

da Cynthia Semíramis

Rainhas do lar

em 23/09/2010

Das coisas que aprendi na marra, uma delas é que a mulher é a alma da casa: se ela está bem, tudo está bem; se ela está mal, a casa vira um caos. Mesmo homens morando sozinhos são dependentes da mãe, ou da empregada, ou de uma mulher que cuide da casa (e deles também). Isso reflete uma educação machista, que transforma a mulher em empregada do homem, responsável pelo bem-estar dele.

Embora eu defenda que meninos também precisam brincar de casinha e que é obrigação de todo mundo saber cuidar da própria casa, e por mais que a gente esteja em um processo de mudanças de mentalidade, diminuindo o peso nos ombros das mulheres, o fato é que ainda vivemos nesse sistema que coloca a mulher como Rainha do Lar, responsável única pelo bem-estar dos súditos no espaço privado.

Para minimizarmos o impacto disso é importante mostrar que existem vários tipos de rainhas, e que elas não precisam se forçar a serem de um tipo ou outro, nem perseguir as que são diferentes. O importante é serem fiéis à sua personalidade, e um bom treino pra isso pode ser justamente começar a entender sua atuação em casa, pois reflete muito de sua postura em relação a outros assuntos. Por isso achei genial a blogagem coletiva para comparar algumas das personalidades possíveis com as Rainhas da Corte no Tarô.

Hoje eu não tenho dúvidas de que sou uma Rainha de Espadas. É um desdobramento óbvio da minha paixão por leitura e estudo desde a infância, e de ter um lado racional/intelectual muito forte. Por mais que minha vida não tenha muita rotina, tem sempre uma lógica por trás, uma racionalidade que pode não ser vista por terceiros, mas está ali, bem nítida para mim, marcando cada momento.

Rainha de Espadas, por Catherine Cheek

Rainha de Espadas, por Catherine Cheek

Minha visão da Rainha de Espadas é bem esta imagem ao lado: ela corta a comida que alimentará e beneficiará pessoas queridas, e é também quem corta os empecilhos, malefícios e burocracia. Uma espada pode ser usada para ferir ou para trazer a cura; a Rainha de Espadas tem de saber essa diferença e usá-la da forma adequada no momento certo. É um longo aprendizado…

A Rainha de Ouros tem me visitado com frequência, me ajudando a cuidar dos meus filhotes (seis gatos lindos) e estimulando meu enraizamento na história familiar por meio das habilidades culinárias (comuns a todas as mulheres na família, cada uma com sua especialidade). Hoje sou uma pessoa que faz pão, que tenta ter uma horta de ervas na janela e que flerta com o ditado “quem recusa minha comida recusa meu amor“. É esta rainha que tem feito com que eu aprenda a circular energia e transmitir amor por meio de alimentos.

Porém, quem direciona meu modo de transmitir energia é a Rainha de Espadas: levei muito tempo pra entender que meu jeito de cozinhar é racional, que só me adapto a receitas com medidas e instruções precisas, que se eu não conhecer a lógica, a fórmula ou o planejamento, não conseguirei resolver a questão a contento. É por isso que só aprendi a cozinhar depois de encontrar livros sérios com fórmulas testadas, pois são elas que me dão a base para fazer modificações de forma controlada, seguindo método científico. E é por isso que não entendo bem os reparos domésticos: se não faço a menor ideia de como eles funcionam (um erro gravíssimo na minha formação), como vou poder consertá-los?

A Rainha de Espadas pode parecer fria pra muitas pessoas, mas isso não implica em alheamento do mundo, ou falta de sentimentos. Ela está armada, e sabe que um erro no manejo da espada pode ser fatal. Ela conhece todo o peso da responsabilidade. Sabendo disso, não tem como ser leviana ou fazer de conta que ignora o poder que está em suas mãos. Quem convive mais de perto com ela sabe muito bem que ela tem hora pra trabalhar, e hora para descansar, brincar e agir de forma leve. Mas, nos momentos de seriedade, o sangue frio é o mínimo que se espera dela – e ele está lá, mesmo na situação mais caótica, ou no festival de gargalhadas em um evento social com colegas de trabalho.

No lar, me parece que a Rainha de Espadas é a mais consciente das consequências de qualquer decisão, seja de atender um estranho à porta (já me aconteceu de não querer atender, suspeitando que era tentativa de roubo – e os acontecimentos posteriores indicaram que era mesmo!) até decidir o tipo de encanamento adequado, o cardápio da semana, a lista de compras, ou mesmo a hora certa pra ir ao hospital quando uma pessoa está doente.

Quando dizem que a Rainha de Espadas é viúva ou triste, eu acho estranho. Sozinha é um termo melhor. E não se trata de ligações afetivas ou pessoais, mas da consciência de que ela não precisa estar cercada de pessoas para se sentir bem ou feliz. Pelo contrário, um pouquinho de isolamento para pensar na vida não faz mal. O que importa para a Rainha de Espadas é que ela sabe que é um ser humano único, com autonomia e desejos próprios. Pode viver sozinha e feliz, ou cercada de pessoas – e estará feliz, desde que consiga manter sua singularidade. Ela valoriza as pessoas que respeitam sua autonomia. Seus amigos, parceiros e amantes são atraídos para ela por admirarem sua autonomia. É uma relação bastante interessante e enriquecedora para todas as pessoas envolvidas.

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2 respostas para “Rainhas do lar

  1. Vivi Nogueria disse:

    eu amo as receitas desse site ( obrigada)

  2. Estou conhecendo agora esse blog..muito bom

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