Caderno de Receitas

da Cynthia Semíramis

Feministas na cozinha

em 15/11/2007

Vi no post de aniversário das Rainhas do Lar uma referência a um post polêmico sobre Bolo de Laranja. Curiosa, procurei o dito cujo nos arquivos, e fiquei horrorizada com o que li! Alguém comentou, da forma extremamente grosseira, que o blog das rainhas é um retrocesso, que as feministas trabalharam muito para que as mulheres fossem ter destaque no mercado de trabalho ao invés de pilotar fogão, e coisas semelhantes. Como se não bastasse, alguns comentários também foram infelizes, taxando a comentarista mal-educada como lésbica, mal-amada, e usando conceitos de feminismo mais esdrúxulos possíveis.

Sou feminista e não compartilho das coisas que a comentarista sem noção escreveu. Quem se nega a fazer atividades domésticas, ou mora nas nuvens e se alimenta de ar, ou demonstra que nunca precisou cuidar de uma casa. Provavelmente, tem uma mulher (mãe ou empregada doméstica) para fazer todo o serviço. Assim é fácil de falar, né?

Casas precisam ser limpas e arrumadas, pessoas precisam ser alimentadas, e alguém tem de fazer isso, não importa se os moradores são homens, mulheres ou ambos. Discutir quem fica responsável por essas tarefas, se há remuneração, valorização social ou não, e porquê, é uma questão feminista, sim, e dentre seus desdobramentos, encontramos cada vez mais homens na cozinha e na limpeza da casa, além de homens e mulheres mais conscientes do valor do trabalho doméstico.

Mas, por causa dessas questões, vir a tal comentarista a reclamar das mulheres que esquecem os séculos de desigualdade e batem bolo para os maridos é ter uma visão muito estreita das relações humanas. Se fosse bater bolinho pra minha mãe, teria algum problema? E pros meus amigos? Ou as mulheres devem bater o bolinho apenas pra elas, se o marido quiser ele que vá fazer um? Isso vale pros filhos também? E filhas? Quem fala isso não entende nada de relações sociais, e se acha em uma ilha. Fazemos favores e recebemos favores e gentilezas o tempo todo, qual o problema de, de vez em quando, agradarmos o marido, o filho, a mãe, etc? Sou menos feminista por isso? É óbvio que não, pois eu tenho escolha. Faço porque quero, porque gosto, e não porque existe algo (como o sistema de submissão e obediência que vinculava a minha bisavó) me obrigando a fazer. Não ignoro os séculos de desigualdade, mas não vou descontá-los em pessoas que também estão interessadas em superar esse passado horroroso de dominação feminina.

Eu tenho outras coisas pra falar sobre o tal comentário polêmico, mas não estou com paciência pra isso agora. Fiquei muito feliz ao ler os outros comentários pois, apesar de alguns terem escorregado na grosseria, a maioria mostrou mulheres que conciliam carreira e família muito bem e com orgulho. Elas escolheram isso, e estão felizes assim.

E sim, eu conheço a receita do bolo de laranja. Fica muito bom. Já fiz com mexerica orgânica e fica excelente também.

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Uma resposta para “Feministas na cozinha

  1. Faby disse:

    Cynthia, seu post é simplesmente perfeito!

    Bjo carinhoso,
    Faby

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